Mapeando a produtividade, por Nilson Costa
Em razão da complexidade do mundo do trabalho é importante que o sindicalista esteja preparado e atento a tais transformações que influenciam a rotina e a vida dos trabalhadores no chão de fábrica. Afinal, o trabalho não pode ser visto como uma atividade individual e desvinculada da sociedade. Acima de todas as coisas, o trabalho é uma atividade humana e social. Apresenta, portanto, características, construídas historicamente, que se relacionam com a própria evolução da sociedade e com as formas de controle e distribuição do poder.
Uma das ricas ações que têm apresentado resultados concretos e positivos para os trabalhadores, em particular, do ramo metalúrgico cutista, é o estudo de “mapeamento do processo produtivo”. Desenvolvido em parceria com a entidade holandesa TIE, o mapeamento tem contribuído para reverter processos de demissões e também para melhorar as condições de segurança nos locais de trabalho. Os metalúrgicos do ABC são os pioneiros na utilização deste estudo na ação sindical. Em 1993, a categoria aprovou no seu Congresso a importância de “priorizar, como forma de intervenção na organização do trabalho, a coleta, sistematização e avaliação de informações levantadas pelos trabalhadores no local de trabalho”. Também definiu que “as condições de trabalho” sejam o ponto de partida de toda e qualquer ação sindical, por parte das Comissões de Fábrica (Comitês Internos de Trabalhadores), Cipas (Comissões de Internas de Prevenção de Acidentes Higiene e Segurança), delegados sindicais e diretores. Há muitos anos na Mercedes Benz, após um mapeamento realizado pelo Sindicato foi possível mudar o quadro de demissões, cerca de 600, possibilitando a contratação de cerca de mil profissionais.
No ano passado, em meio à crise financeira internacional, outra experiência de mapeamento foi extremamente positiva para a categoria. O estudo foi feito, em junho de 2009, na fábrica da Volkswagen de Taubaté – que contou com a parceria do TIE. Antes do mapeamento, de um lado os trabalhadores estavam sobrecarregados, realizando o dobro da sua jornada normal de trabalho e como consequência muitos adoeceram e foram afastados, reclamando da forte pressão do ritmo de produção. De outro, a direção da fábrica queria reduzir continuamente o número de trabalhadores.
Diante deste cenário, o nosso Sindicato (Metalúrgicos de Taubaté e Região) tomou a decisão política de fortalecer a Organização no Local de Trabalho e de mapear todos os setores da fábrica para estabelecer uma política de ação sindical de acordo com a realidade da categoria. No mapeamento da VW analisamos o sistema produtivo, a partir do ponto de vista dos trabalhadores, e identificamos os problemas causados na organização do processo produtivo e na forma de produzir. Os resultados foram interessantes. Apuramos que a empresa produzia 238.350 veículos com 5.400 Trabalhadores em 227 dias trabalhados, gastando em média 41 horas para produzir cada veículo. Isso significa que eram necessárias 9.806.400 milhões de horas trabalhadas para alcançar este resultado. Ao analisar os dados setor por setor chegamos ao número de 105 a 353 contratações que seriam necessárias para se cumprir a meta de 1050 veículos/dia da montadora. Apresentamos o estudo à direção da VW que propôs a contratação de 110 novos postos de trabalho, incluindo 15 ferramenteiros, o que não ocorria desde 1986!
Este exemplo revela a importância do mapeamento na nossa ação e prática sindical, mostrando que estas informações são essenciais também nas mesas de negociações e podem significar conquistas concretas das reivindicações da categoria e do movimento sindical como um todo. Além do setor produtivo, o mapeamento também pode ser feito em outras situações, como por exemplo, para avaliar se a PLR é compatível com as metas de produção (Na Ford-Taubaté, em 2006, fizemos um mapeamento que resultou no aumento da PLR dos trabalhadores) e também para analisar o índice de produtividade com o percentual de acidentes e doenças profissionais.
No Planejamento da FEM-CUT, que acontecerá nos dias 10 e 11 de março, na sede da FEM e CNM em SBC, socializarei com todos os sindicatos filiados a importância de incluir o mapeamento nas ações sindicais em todos os setores, porque além de fortalecer a organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, também valoriza o papel do dirigente.