Negociação democrática se faz pelo diálogo


Nesta semana, dois fatos envolvendo trabalhadores metalúrgicos, empresas e a PM chamam a atenção. A violência policial praticada contra trabalhadores e trabalhadoras é um erro que não podemos mais permitir que aconteça.
Na terça, 11, trabalhadores na Brose, que fica em Salto, no interior paulista, realizavam uma assembleia na frente da empresa, sobre a pauta de reivindicações que a Brose se negava a conversar a respeito. Policiais Militares foram chamados pela empresa e fortemente armados, agiram de forma covarde e truculenta contra todos os que estavam no local, atingindo diversos companheiros com sprays de pimenta, em mais uma ação fascista e lamentável.
Tudo o que os trabalhadores queriam naquele momento era negociar. Chegar a um acordo por meio do diálogo entre as partes. Como não foram atendidos, cruzaram os braços usando seu legítimo direito de greve, como forma de pressionar a empresa. Em momento algum tiveram alguma atitude que justificasse a violência empregada pela PM. Além disso, os trabalhadores foram filmados e ameaçados por diretores da empresa para que entrassem na fábrica.
Como se não bastasse, no mesmo dia os companheiros na Aethra, que é uma fornecedora da Fiat que atua em Contagem-MG, sofreram uma ação ainda mais violenta. Eles reivindicavam melhorias salariais e de benefícios, quando foram agredidos violentamente por policiais que, pouco antes, haviam se reunido com a direção da empresa, em uma atitude no mínimo suspeita, nos moldes do velho coronelismo.
Dois diretores e um funcionário do Sindicato dos Metalúrgicos de BH/Contagem foram gravemente feridos após essa ação truculenta. Ao todo, a PM acionou mais de 20 viaturas, em uma tentativa de intimidação exagerada e desnecessária. Enquanto isso, a criminalidade corre à solta nos bairros de Contagem, que é hoje uma das cidades mais violentas de Minas Gerais.
Algo semelhante a estes fatos ocorreu aqui no ABCD há mais de 20 anos, na histórica "Batalha do Piraporinha", em Diadema. Em 5 de maio de 1989, policiais jogaram bombas de gás e atiraram em metalúrgicos que faziam passeata em frente a Arteb, por conta da campanha salarial daquele ano. Os conflitos deixaram cinco metalúrgicos baleados. No dia seguinte, realizamos um ato de protesto na sede do Sindicato contra a violência da PM, que contou com a presença de sindicalistas, representantes de partidos políticos e da Igreja.
Desde as greves na década de 70, até hoje, as relações entre trabalhadores e empresas avançaram substancialmente aqui na região, já que o próprio empresariado viu que o diálogo é a forma mais eficaz para se chegar a um acordo. Mas para isso, foi preciso radicalizar e fazer grandes greves para chegar ao nível de consciência que os patrões tem atualmente.
É preciso entender que a PM é uma instituição que deve concentrar suas forças no combate ao crime. A violência ainda é um dos maiores problemas do Brasil e por isso, quem deve ser alvo da polícia são os criminosos e não os trabalhadores. A polícia não pode ser um instrumento de intimidação a serviço do capital. Esta é uma página que já deveria ter sido esquecida na história do país.

Carlos Grana
é presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT.


19/05/2010


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